Cinco Conselhos para o uso de Tecnologia em Educação

Esse artigo busca ajudar professores que estejam refletindo sobre o uso de tecnologias como ferramenta de auxílio no processo de ensino-aprendizagem.

A ressalva é que as tecnologias, por mais mágicas que possam parecer, são apenas um meio para um fim, que é a produção de uma experiência de crescimento. E devem, portanto, sempre estar norteadas por uma proposta pedagógica clara, além de um desejo de transformação genuíno para colocar o aprendizado em prática e mudar a realidade local. Em se tratando de educação, pouco adianta saber muito se não saímos do nosso egoísmo, nem praticamos o que sabemos. Ao final do artigo você irá encontrar uma lista de livros que podem agregar valor à sua jornada.

“Há dois erros que alguém pode cometer no caminho para a verdade. Não completar o caminho e não começar.”
- Siddhartha Gautama

1 Evitar o fracasso é contraproducente
Em primeiro lugar vamos esclarecer de que tipo de fracasso estamos tratando. Não é o fracasso da falta de iniciativa, ou o atalho que não deveria ter sido tomado, ou o trabalho malfeito de alguém que não se importa. Estamos falando do fracasso de pessoas com boas intenções: pessoas que procuram conexão, alegria e a capacidade de fazer a diferença. Não existem fórmulas prontas para o uso de tecnologia no auxílio ao processo educacional, portanto falhar é provável. Não encare esse tipo de fracasso como uma derrota, mas como uma fonte rica em informações. Não existe qualquer problema em falhar eventualmente. O diferencial é tentar nunca fracassar pelo mesmo motivo, se tornando menos frágil ao longo do caminho. Perfeccionistas são pessoas que nunca entregam. Crie, analise, compartilhe suas experiências, faça ajustes e repita o processo, todos os dias. Esse é um ciclo virtuoso. Assim como na musculação, nosso aprendizado só acontece pra valer quando estendemos nossas capacidades ao nosso limite. Não existe ganho, sem dor. Por isso, não tenha medo de produzir uma experiência em sala que não tenha funcionado. Não encare essa derrota como algo definitivo. Colete opiniões dos alunos e outros professores sempre que possível, e nesse aspecto é recomendável que você leia materiais sobre as técnicas de design thinking.

Crie, analise, compartilhe suas experiências, faça ajustes e repita o processo, todos os dias. Esse é um ciclo virtuoso.

Ter permanentemente em foco como será a experiência do público-alvo é um parâmetro inestimável para desenhar a sua proposta e minimizar as chances de fracasso. Tente não fixar seus pensamentos na possibilidade de fracasso, mas na satisfação da sua curiosidade. É a curiosidade que nos leva à casa mal-assombrada, porque a excitação está no inesperado, e não no que é seguro.

2 Seja um iniciador
Integridade intelectual vai além de inteligência: requer que você ponha suas ideias no mundo. Se você não lançar a ideia, na verdade não começou nada. E ideias não mudam o mundo, ações mudam. Em algum momento, seu trabalho tem de cruzar com o seu público, sejam alunos ou professores. Em algum momento, você precisa de uma resposta para saber se ele funcionou ou não. Caso contrário, não passa de um hobby. Não mensure sua experiência ou produtividade pelo número de livros lidos, cursos feitos, ou reuniões realizadas, mas sim pelo número de projetos ou experimentos que você conseguiu colocar em prática com os alunos. Você não precisa, ou jamais precisará, saber de tudo. Precisa saber apenas o suficiente para fazer as coisas funcionarem. Não fique em estado de “analysis paralysis”, quando a análise excessiva ou a reflexão excessiva de uma situação impede a tomada de decisões. Seres humanos lidam melhor com a escassez do que com a abundância, e isso vale também para a quantidade de informações para tomar opções. Não é preciso consumir conhecimento até se estar preenchido, é mais importante se cercar do mínimo de conhecimento para se manter incendiado pela chama do entusiamo. Mais cedo ou mais tarde, muitos idealistas transformam-se em realistas desmotivados que equivocadamente acreditam que desistir é a mesma coisa que ser realista. Então comece devagar, com um número reduzido de experimentações, na medida em que estiver no limite entre a busca curiosa e a excitação do desafio. Reúna força, coragem e paixão para começar (e concluir) suas ideias no mundo real, onde elas efetivamente poderão fazer diferença para a vida dos alunos.

3 Aprenda a sentir conforto com o desconforto
A constante do mundo atual é a mudança. As inúmeras revoluções tecnológicas e seu consequente impacto no comportamento, são inéditas, e vieram sem data para expirar. O mundo está rodando em estado Beta (inacabado/instável), nem remotamente é possível prever quando teremos um modelo estável. A educação se tornou um problema tão complexo e desafiador que já não é possível esperar por respostas apenas da pedagogia. É preciso juntar várias habilidades do mundo do design, da engenharia, da psicologia, entre outros campos, para formular propostas inovadoras. Sendo assim, é normal se sentir sobrecarregado e perdido, mas existe também um lado positivo nisso. Se por um lado as instituições não sabem definir diretrizes e procedimentos para indicar por onde começar, lembre-se que isso também permite que você tenha a liberdade de experimentar da maneira que achar mais apropriada! A educação brasileira está entre as piores? Ótimo, isso indica que você estará resolvendo um problema relevante, não trivial, onde qualquer contribuição será bem-vinda. Se não tem desenvoltura para gravar videoaulas, escreva um artigo num blog, ou seja curador de materiais que outros alunos e professores publicaram. Nunca houve tanto material de qualidade e tão acessível. E parte da tarefa do professor é auxiliar os alunos através da mediação da descoberta e seleção de tudo que está lá fora, incentivando a autonomia. Não sinta síndrome de impostor por isso. E pare de esperar por um guia. Recompensamos mais aqueles que traçam mapas, não aqueles que os seguem. A natureza humana diz que precisamos de um mapa? Se você tiver coragem suficiente para desenhar um, as pessoas o seguirão.

4 Trabalhe regularmente
Isaac Asimov, um dos maiores nomes da ficção científica, escreveu e publicou mais de quatrocentos livros digitando de seis da manhã até meio-dia, todos os dias, durante quarenta anos. O segredo de como colocar as coisas em movimento não está na velocidade, mas na constância do movimento. Os primeiros materiais que você produzirá não serão os melhores, nem precisam ser. Eles precisam ser apenas bons o suficiente. A maior parte das pessoas não poderá contar com câmeras, microfones, softwares, e suporte pedagógico adequados. Irá levar algum tempo até que você encontre as tecnologias e linhas pedagógicas que melhor se adequem a seu estilo, à infraestrutura da sua escola e ao perfil dos seus alunos. É um casamento que requer experimentações até encontrar um equilíbrio. Não seja impedido por isso, apenas mantenha-se regularmente aprimorando suas técnicas e os resultados virão. Aprender a amar o processo, mais do que o resultado, é o melhor que se pode fazer para manter a busca pela excelência sempre aquecida.

5 Evite a digitalização dos processos analógicos
Depois de alguns anos estudando experimentos educacionais com uso de tecnologia, não será raro encontrar o que o professor Silvio Meira (cientista, professor e empreendedor brasileiro com atuação na área de engenharia de software e inovação) chama de “digitalização do processo analógico”. Isso pode ser melhor explicado analisando um exemplo. Há anos atrás, por exemplo, o governo de Pernambuco decidiu “inovar” as escolas da rede pública com a distribuição de computadores para os alunos. Além do problema de não ter uma estratégia pedagógica clara para o uso dos equipamentos nas escolas, nele constavam várias obras clássicas da literatura em formato pdf. Se pararmos para refletir, ler uma obra literária num computador não é nem um pouco diferente de ler a mesma obra impressa no papel (na verdade, nesse caso, o papel até possui mais vantagens do que desvantagens, como conforto de leitura, não necessita de energia, etc). Ou seja, a iniciativa buscava apenas reproduzir a mesma experiência do mundo analógico para o mundo digital, daí portanto, a digitalização do processo analógico. O mesmo acontece quando se tenta dar um ar de inovação em trabalhos que “modernizam” o ensino EAD (Ensino a Distância) através do envio de materiais e discussões por e-mails. Novamente, uma experiência não substancialmente diferente do que o ensino EAD já fazia há décadas atrás por meio do envio de cartas. Dessa forma, é importante pensar no uso de tecnologia em sala de aula como uma experiência de fato digital. Se a proposta é ler uma obra literária, que tal um site que além do texto original, permita que os alunos destaquem as passagens que consideram mais interessantes? E se eles pudessem visualizar os trechos que outros alunos destacaram? E se pudessem deixar notas de discussão para essas passagens? Se houvesse ilustrações ou filmes interativos? Isso sim seria algo que poderíamos denominar de uma experiência digital, extraindo vantagens das suas peculiaridades, sendo portanto irreplicável em outros meios.

E para concluir…

Costumamos achar que entendemos quando pensamos, mas na verdade a gente só entende quando colocamos nosso conhecimento à prova da prática. É o que você faz, e não o que você sabe, que faz a diferença. Leon Tolstói dizia: “Se queres ser universal, começa por pintar as paredes da tua aldeia”. Então experimente dentro das possibilidades do seu contexto e na medida da sua ambição, mas tome uma ação. Inovar foi, é, e sempre será, correr riscos!

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