Princípios de uma Abordagem para a Prática Deliberada

Rafael Moraes
8 min readFeb 10, 2023

Prática Deliberada: Qual a sua Importância?

Arrisco afirmar que existe uma estratégia que é a principal responsável pela construção de habilidades, o principal motivo pelo qual algumas pessoas progridem e outras não, e ela é conhecida como “prática deliberada”.

Embora seja difícil apontar a maneira “perfeita” de praticar, é possível dizer que existem muitas formas equivocadas ou pouco eficientes. E usando as palavras de Anders Ericsson no seu livro seminal:

De todas as inúmeras abordagens disponíveis, as mais prováveis de obter sucesso são as que mais se assemelham à prática deliberada.
- Anders Ericsson & Robert Pool in “Direto ao Ponto — Os Segredos na Nova Ciência da Expertise” (p. 132)

Definição. A prática deliberada é uma estratégia que visa estender nossas habilidades para além zona de conforto — superando plateaus — enquanto recebemos feedback objetivo sobre nossa performance. Ou seja, treinar uma técnica para além do nosso domínio enquanto busca-se constantemente criticar o resultado a fim de melhorar os pontos fracos.

Existe uma diferença entre atingir níveis aceitáveis de habilidade, e ir além disso, superando os plateau que naturalmente encontramos na busca por excelência. Uma das características principais da prática deliberada é justamente nos empurrar para além desses plateau, por um lado gerando desconforto, mas por outro nos colocando numa zona onde nunca estivemos, e onde a concorrência é baixa. Ou seja, se estamos “confortáveis”, então provavelmente estamos estacionados em um “plateau aceitável” de performance, e portanto, paramos de evoluir em direção à excelência.

A maior parte das pessoas imagina não ser necessário estabelecer um programa estruturado de treinamento. Acreditam que apenas o acúmulo de horas desempenhando as mesmas tarefas será suficiente para desenvolverem habilidades-chave para suas carreiras. É claro que reorganizar nossos pensamentos, que é o que acontece quando aprendemos, toma tempo. Mas não deveríamos focar nisso, e sim em ciclos de prática intensiva com feedback. Assim como um atleta de alta performance, que enfrenta um alto nível de competitividade, precisamos ter sessões práticas compostas por três etapas:

1. Identificar as habilidades-chave (raras e valiosas) da nossa área de atuação. Observe e entreviste pessoas que estão no nível de excelência que você almeja alcançar;
2. Definir metas claras para nossa sessão prática, explicitando de uma forma mensurável o objetivo. Se necessário divida a habilidade em segmentos menores para praticá-los separadamente. Esses primeiros dois fatores combinados definem a intenção do nosso aprendizado;
3. Traçar estratégias eficientes para atingi-las, e é especialmente esse o aspecto que iremos aprofundar na discussão desse artigo.

Biologicamente, com a prática deliberada, iniciamos um processo chamado mielinização. A mielina é uma camada composta de proteínas e lipídios que envolve os axônios, que são uma espécie de “filamento” que interliga os neurônios. Essa “bainha de mielina” que se forma ao redor dos axônios é um isolante que facilita a transmissão de sinais elétricos entre cadeias de neurônios. Assim os padrões elétricos que são formados por nossas representações mentais podem ser melhor eficientemente reproduzidos, tendo como efeito um incremento de nossa habilidade.

Mitos e Fatos sobre Aprendizado

Primeiro vamos elencar alguns mitos predominantes:

- Mito 1: Nossa capacidade cognitiva ou habilidades são determinadas geneticamente, tornando impossível expandir essas capacidades uma vez estabelecidas — o que é também conhecido como mentalidade fixa (fixed mindset).

- Mito 2: Todas as pessoas que seguem praticando uma habilidade irão — invariavelmente — melhorar seu desempenho após um período de tempo suficiente.

- Mito 3: O esforço é condição suficiente para melhorar o desempenho nas habilidades. Dada essa condição, se você não estiver melhorando é porque carece de talento inato (mito 1).

Agora vamos aos fatos já conhecidos…

- Fato 1: As características inatas exercem um papel, mas ele é muito mais limitado do que as pessoas imaginam, e é subjugado se não for cultivado por práticas adequadas que possam fomentar as características iniciais. De maneira geral, os talentos estão subjugados ao molde de abordagens que se assemelham à prática deliberada, de forma que todos podem obter vantagens competitivas em quase qualquer área, desenvolvendo seu próprio potencial numa postura que chamamos de mentalidade voltada ao crescimento (growth mindset).

- Fato 2: Fazer a mesma coisa, repetidamente, mantendo os procedimentos e métodos é — na verdade — a receita para a estagnação e eventualmente o declínio gradual.

- Fato 3: Embora esforçar-se até o limite seja uma das características-chave de prática deliberada, essa condição não é suficiente. Se você está praticando por tempo e esforços suficientes e não está melhorando habilidades específicas é porque não está praticando da maneira correta.

Os Quatro Princípios de uma Abordagem com Prática Deliberada

Organizei os princípios de uma forma aleatória, portanto eles não refletem um grau hierárquico entre si.

1. Replique cenários realistas

Os conhecimentos e habilidades exigidos pelo cenário real podem ser substancialmente diferentes dos conhecimentos e habilidades para ser aprovado num exame. E esse talvez seja um dos principais — senão o principal — problema do modelo de ensino tradicional. Uma vez que o modelo tradicional é centrado — quase sempre — em aquisição de conhecimento e aprovação de exames em série, e não no compromisso com o processo de desenvolvimento de habilidades orientadas à solução de problemas ou elaboração de ensaios autorais — ou seja — formulação, desenvolvimento, experimentação e testagem de soluções de problemas — preferencialmente — reais.

O ponto principal é o que você é capaz de fazer, e não o que você sabe, embora se subentenda que você precisa saber certas coisas a fim de ser capaz de fazer o seu trabalho.
- Anders Ericsson & Robert Pool in “Direto ao Ponto — Os Segredos na Nova Ciência da Expertise” (p. 142)

2. Feedback imediato

Seja um mentor ou um programa de computador projetado para esse fim, ter um apontamento do erro em conjunto com uma sugestão de correção é uma forma extremamente poderosa para melhorar seu desempenho. E como desempenhar em alta performance exige uma larga faixa da nossa capacidade cognitiva, o fato de terceirizarmos essa análise objetiva de desempenho a torna ainda mais vantajosa, uma vez que temos extrema dificuldade de performar e nos autoavaliar simultaneamente. Saber prontamente quando cometemos erros, conhecer os padrões de erros mais comuns e as estratégias que possibilitam a tomada de decisões ágil e corretiva nos auxilia a desenvolver representações mentais mais eficazes.

Nota. já tomei conhecimento de casos em que a pessoa registra sua performance para fazer uma análise crítica posteriormente, ou submeter essa performance gravada a uma análise de outra pessoa. É uma conduta válida desde que possa ser operacionalizada, o que realmente conta como feedback é passar por um crivo crítico externo.

3. Indução aos limites da performance

Existe uma ideia derivada do psicólogo Anders Ericsson chamada 10.000-hour rule.

A ideia de que a excelência na execução de uma tarefa complexa requer um nível mínimo crítico de prática vem à tona repetidamente em estudos de especialização. Na verdade, as pesquisas estabeleceram o que acreditam ser o número mágico para a verdadeira especialização: 10.000 horas.

Mas a questão da prática deliberada não envolve apenas a quantidade de horas acumuladas, mas principalmente o tipo de trabalho foi realizado. Muitos estudos comprovam que indivíduos diferentes que acumulam a mesma quantidade de horas práticas podem desenvolver níveis de habilidades que variam do mediano ao excepcional, pois o resultado depende da qualidade, e não apenas da quantidade, dessas horas.

Portanto, treinar por 10.000 horas pode ser insuficiente. Porque é necessário que uma parte representativa do seu treinamento você seja induzido a trabalhar próximo do limite da sua capacidade, às vezes até a falha. É assim que fazem fisiculturistas em busca de hipertrofia. Repetição de movimentos com alto grau de dificuldade, até não conseguirem mais erguer o peso, quando a falha ocorre. Nesse ponto existem pequenas fissuras sendo produzidas no tecido muscular, que irão se regenerar no período de descanso, gerando, como consequência, um aumento de volume muscular.

Se você observar a rotina de atletas profissionais irá perceber que a maior parte do treino é dedicada a sistematicamente expandir o limite de suas habilidades — geralmente com um acompanhamento de um mentor/treinador. Apesar de quando observados os atletas de alto desempenho parecerem não estarem se esforçando, quando os cientistas examinam esses profissionais não é possível identificar um componente genético que confira a eles talentos especiais. O que é possível identificar — em todos os casos — é uma quantidade substancial de horas dedicadas à prática deliberada que se acumulam ao longo da vida e os eleva a um patamar de excelência.

Fazer coisas que sabemos fazer bem é prazeroso, e isso é exatamente o oposto do que a prática deliberada exige. A prática deliberada é, acima de tudo, um esforço de foco e concentração. Isso é o que a torna “deliberada”, diferente de jogar tênis distraidamente ou das rebatidas de bolas de tênis que a maioria das pessoas pratica.
- Cal Newport in “So Good They Can’t Ignore You” (p. 96)

4. Sessões de foco total

Conseguir trabalhar numa tarefa completamente focado pode parecer algo próximo do impossível num mundo com opções crescentes de entretenimento e distrações, mas existem boas razões para treinarmos essa capacidade. A mudança de contexto entre diferentes tarefas ocorre a um custo da nossa capacidade de executar tarefas complexas em alto desempenho — estágio fundamental nas sessões de prática deliberada, pois parte da nossa capacidade de atenção fica retida nas tarefas previamente abandonadas.

A estratégia que costumo adotar é uma defendida pelo autor Cal Newport, em seu livro mais famoso, o time-blocking planning. Ela consiste em dividir uma parte do seu dia em blocos de tempo que serão dedicados a concluir tarefas ou grupos de tarefas específicas. Ou seja, ao invés de tornar-se refém das circunstâncias e inspirações, você terá previamente determinado “quando” e “o quê” será realizado ao longo do dia, permitindo inclusive uma estimativa mais precisa do que pode ser realizado ao longo de um intervalo de dias.

“Às vezes as pessoas perguntam por que me preocupo com um nível tão detalhado de planejamento. Minha resposta é simples: gera uma enorme quantidade de produtividade. Uma semana de trabalho de 40 horas blocadas, eu estimo, produz a mesma quantidade de produção que uma semana de trabalho de mais de 60 horas sem estrutura.”
- Cal Newport in “Deep Work: Rules for Focused Success in a Distracted World”

Concluindo

É por essas razões que o acesso aos melhores cursos, livros e palestras pode oferecer pouco impacto na performance, pois esses materiais possuem pouco — ou nenhum — feedback (detecção e correção objetiva dos erros por meio da terceirização por mentores ou aplicativos), e costumam se restringir à aquisição de conhecimentos, e não à progressão gradual de habilidades. A questão que deve ser posta não deveria ser — ou se restringir a ser — “como adquirir novos conhecimentos?”, mas sim, “como aperfeiçoar as habilidades mais relevantes para a natureza de problemas que desejamos resolver?”. Em última análise, é sobre o que se é capaz de fazer — e não conhecer. E em especial sobre o quão próximos do nível dos melhores atores em uma determinada área conseguimos alcançar uma vez que conseguimos identificar as habilidades que fundamentam seu desempenho superior.

A prática deliberada não é apenas o caminho mais eficaz para desenvolver novas habilidades, é também o caminho mais curto, e portanto, o mais eficiente. Certifique-se de aplicar os princípios dentro do contexto das habilidades-chave da sua área. Tenha paciência para caminhar pela zona do desconhecido e desconfortável e, confie no processo. Você será capaz de chegar bem mais distante do que poderia supor.

Referências

- Direto ao Ponto — Os Segredos na Nova Ciência da Expertise (Anders Ericsson & Robert Pool)
- Mindset: A Nova Psicologia do Sucesso (Carol Dweck)
- Bom Demais para ser Ignorado: Por que as Habilidades Superam a Paixão na busca pelo Trabalho que Você Adora (Cal Newport)
- Trabalho Focado: Como ter Sucesso em um Mundo Distraído (Cal Newport)

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