Vida de Pesquisador: Pesquisa Bibliográfica e Fichamento. Por que e como fazer?

Eu considero que a pesquisa (ou revisão) bibliográfica é a primeira fase de uma pesquisa. É nela onde o pesquisador tem a oportunidade de se expor as ideias correntes no estado da arte. É uma caminhada sobre o campo de conhecimento explorado, ou seja, entrar em contato com o que existe de mais novo na discussão acadêmica. Esse é o berço da geração de ideias de pesquisa.

É também nesta etapa da pesquisa onde podemos verificar as soluções já encontradas, a fim de evitar refazer estudos já desenvolvidos. Ao invés disso, é mais frutífero retestar soluções enfocando novos aspectos para antigos problemas.

Porém, antes de iniciar o fichamento, se faz necessário sistematizar a pesquisa bibliográfica. E aqui cito os passos descritos por Waslawick (Metodologia de Pesquisa para Ciência da Computação, 2014, pág. 52).

  1. Listar os títulos de periódicos e eventos relevantes para o tema de pesquisa. Essa lista muitas vezes pode ser conseguida pela indicação do seu orientador.
  2. Obter a lista e todos os artigos publicados nos últimos cinco anos (ou mais) nesses veículos.
  3. Selecionar dessa lista aqueles títulos que tenham relação com o tema de pesquisa.
  4. Ler o abstract/resumo desses artigos e, em função da leitura, classificá-los como relevância “alta”, “média” ou “baixa”.
  5. Ler os artigos de alta relevância e fazer fichas de leitura anotando os principais conceitos e ideias aprendidos. Anotar também títulos de outros artigos possivelmente mencionados na bibliografia de cada artigo (mesmo que com mais de cinco anos) e que pareçam relevantes para o trabalho de pesquisa. Chamamos esse método de snowballing. Incluir esses artigos na lista dos que devem ser lidos (inicialmente o abstract e, se for relevante, o artigo todo).
  6. Dependendo do caso, ler também os artigos de relevância média e baixa, mas iniciando sempre pelos de alta relevância.

Ao final se faz necessário decidir junto ao orientador se já se dispõe de material suficiente para prosseguir com a pesquisa. Caso necessário, pode-se buscar artigos anteriores aos últimos cinco anos, ou consultar periódicos menos relevantes a fim de expandir a pesquisa bibliográfica.

Finalizada a revisão bibliográfica, para que realizar um fichamento?

O fichamento existe para que, uma vez lidos os artigos, dissertações, teses e/ou livros, fique mais fácil revisitar as ideias para seu uso na pesquisa. Para isso é necessário documentar sistematicamente, a fim de se fundamentar hipóteses e teorias, e colocá-las em perspectiva. Do contrário os pesquisadores correm o risco de confundir-se ou desorganizarem-se, e assim, terem um imenso retrabalho. É muito importante que — especialmente entre jovens pesquisadores — fique entendido que cada centavo de tempo investido aqui retorna em várias horas de trabalho poupado no futuro.

Que campos de informações um fichamento pode conter?

Em geral os fichamentos costumam ser feitos em fichas, daí seu nome. O uso de planilhas de fichamento também são bastante comuns.

  1. Citação bibliográfica precisa no modelo ABNT (título, autor(es), ano, edição ou origem de publicação, número de páginas, editora, etc.)
  2. Informações do autor (nomes dos autores, instituição de origem, etc.)
  3. O objetivo da obra. Ou seja, o que foi obtido como resultado desse trabalho em particular? Qual a sua contribuição científica para o que já se sabia antes?
  4. Citações extensas, entre aspas, dos textos completos que você pretende citar, incluindo uma indicação do número da página no texto original.
  5. Relação com outros autores/obras, ou seja, um campo onde você pode elaborar sobre a relação de uma obra com outras.
  6. Comentário/análise geral da obra (paráfrases)
  7. Argumentação e justificativa de um possível uso da obra no projeto de pesquisa

Como fazer uma referência ou citação no modelo ABNT?

Numa outra postagem irei mostrar uma lista de referências e citações mais frequentemente usadas, e indicar uma fonte mais completa. Por hora eu recomendo que se visite os seguintes sites:

Dicas complementares:

  • Se o livro for seu, não hesite em anotá-lo, sublinhá-lo, etc. Usar é uma forma de glorificar o livro. No mais, um livro usado vale pouco no sebo, e a possibilidade de anotação é justamente uma das grandes vantagens do físico sobre o digital. Por fim, você pode sempre comprar uma edição mais nova depois, ou tirar uma cópia.
  • Sublinhe com critério. Quando tudo é importante, nada é importante. Se possível use siglas como: IMP, para importante, CIT/DT, para citação direta, ou R, para rever um trecho não totalmente compreendido.
  • Seja meticuloso. O trabalho de fichamento precisa ser feito de uma forma bastante metódica. Lembre que todo o tempo investido aqui será pago com juros mais tarde, no decorrer da construção de teorias e testagem de hipóteses, evitando muito retrabalho nas fases seguintes da pesquisa.
  • Nem sempre as melhores ideias vem dos maiores autores. Fiche todos com o mesmo cuidado!
  • Recomendo o uso de um modelo de nomeação de arquivos “AUTOR_ANO titulo do artigo.pdf”. Dessa maneira fica mais fácil agrupar, identificar e resgatar os arquivos quando necessário. Além disso, procure deixar todos os artigos numa pasta compartilhada na nuvem (Google Drive, Dropbox, etc.).

Referências:

  • Metodologia de Pesquisa para Ciência da Computação, 2014 (Raul Sidnei Wazlawick)
  • Como se faz uma tese, 2016 (Umberto Eco)
  • Ferramentas para o pesquisador iniciante, 2011 (Jocelyn Létourneau)
  • Introdução à Pesquisa. Projetos e relatórios, 2007 (Lori Alice Gressler)
  • Canal do YouTube: Além do Lattes. Como fazer fichamentos eficientes de texto (https://youtu.be/E-kc1RtbS18)

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Quando sonho às vezes me lembro de como voar.

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Rafael Moraes

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